quarta-feira, 4 de julho de 2018

O figurino e o lugar, de Fortal City para o mundo.


 Somos um povo que quer partir. Eu uso o cinema como um transportador. O figurino não pode revelar o quanto cafuçus¹ nós somos. No entanto, essa rudeza misturada a um sarcasmo bem humorado, a uma falta de etiqueta declarada e à desarmonia gritante, no que se trata de moda e arquitetura pelo menos, se tornaram o charme da nova produção cinematográfica que faz cada vez mais sucesso pelo Brasil. 
Antropofagia.
Assim como um casaco de pele, tardes cinzentas, assim como os cangaceiros e os beatos, paris, nova iorque, nova russas, parangaba, mucuripe, caminho das índias, anos 70, minha mãe, meu pai, as fotos dos outros, a música, os mendigo-fashion, o bêbado, o banguela, o despachante, ou o contínuo como se costuma a falar. com a globalização agora a gente sabe de tudo e pode comprar tudo pela internet. Falta dinheiro, mas não falta alegria. Antropofagia.
Somos uma potência com um ritmo diferente, meio lento, meio tenso, corajoso. Sou capaz! Mais pro lado do casaco de pele do que pelo lado da flor de papel crepom? Eu não sou daqui? Eu já queria que eu e meus amigos estivéssemos em Hollywood - para passar uns dias e voltar. Aí eu primeiro produzia tudo no EMAUS e o que faltasse no Le marché aux puces e na American Apparel.
Tenho medo da escassez, da pobreza abafar nosso talento. Essa falta de certeza, essa falta de profissionalismo, esse excesso de humanidade. Conflito e Antropofagia.
O mais difícil é a falta de elegância e a voz anasalada que entrega o jogo. O sol também é muito forte, não da pra usar manga comprida, avalie casaco de pele. no noir por cá.
Longa vida ao cinema cearense.


*texto de 20/08/2009 para revista não publicada, encontrado em 04/06/2018.